Tempo, tempo, tempo. Quem sabe lidar com ele? Em uma monografia, a única certeza que você tem é que o tempo não se estende. Se você tem um semestre ou dois para produzir a monografia, terá que trabalhar com esta medida de tempo e adequar seus interesses e possibilidades aos meses de que dispõe.

Conhecer (e admitir) sua vida concreta, e não a vida que gostaria de ter, é fundamental. Se você trabalha e precisa “encaixar” a monografia nos horários de folga do trabalho e das outras disciplinas, é evidente que precisa escolher um tema que exija menos dedicação, em termos de tempo. Se você tem mais tempo disponível, pode projetar um problema mais complexo e que demande mais leituras. O que não pode fazer, de modo algum, é fingir que “vai dar tempo” e inventar de pesquisar um tema que exigiria mais tempo do que você efetivamente terá.

De qualquer modo, tendo mais ou menos tempo, o certo é que precisará de algum. E deverá deixar ao orientador um certo tempo também, para que ele possa fazer o trabalho que lhe compete – ler, revisar, dar retorno. Poucas coisas irritam mais um orientador do que o orientando que não cumpre os prazos, não vem à orientação e depois entrega tudo no último dia, quando não é possível fazer nenhuma alteração. O orientador fica com a sensação clara de ter sido usado. E mal usado, diga-se.

Sempre digo aos meus orientandos que monografia (assim como dissertação e tese) a gente faz aos pedacinhos. É a Lei de Jack. É a única lei que funciona. Depois de estabelecer uma arquitetura, a gente vai dando conta do recado por partes. A cada capítulo, vai entregando ao orientador, que vai lendo, devolvendo e pedindo correções. No final, falta apenas o polimento. Se você não prevê o tempo do polimento, seu texto vai revelar o desequilíbrio, e a banca vai perceber.

Uma vez uma pessoa me disse que não tinha dificuldade alguma com trabalhos, pois tinha um método próprio. Ela “sentava e escrevia”. Tinha feito sua monografia de conclusão de curso assim. Na verdade, tinha tirado férias do trabalho durante duas semanas, e neste período tinha se trancado em casa para escrever a monografia. Eu disse a ela que não acreditava neste método de trabalho, porque nenhum texto tão extenso poderia ser de fato escrito em tão pouco tempo. Realmente o método não funciona, porque esta mesma pessoa depois perdeu todos os prazos – e perdeu o Mestrado.

E por que não funciona? O que acontece quando você começa a escrever? Você mergulha naquela parte do trabalho e, à medida que escreve, surgem dúvidas que requerem uma ou outra nova leitura. Se você não prevê pelo menos três semanas para escrever cada capítulo, não se permite um amadurecimento destas idéias. Seu texto fica plano e sem capacidade de articulação. Além disso, a parte empírica do trabalho normalmente exige uma dedicação maior e grande esforço intelectual. Se você estiver muito cansado – porque passou escrevendo de forma alucinada seus capítulos teóricos –, não terá criatividade para observar seu objeto.

Por todas essas razões, a melhor decisão é de cunho pragmático: já que você não pode estender o tempo, pense em perspectiva e trabalhe com pequenos prazos. Faça seu cronograma, discuta o planejamento com seu orientador. E cumpra estes pequenos prazos, um depois do outro.

Não empurre com a barriga. Não fique fingindo que “vai dar tempo” e que suas madrugadas insones serão suficientes. E não sacaneie o orientador, entregando o texto e esperando que ele lhe dê retorno (e sem exigir modificações, por supuesto) em dois dias. Isso simplesmente não vai acontecer.

A monografia é obrigatória e paira sobre os ombros do monografando como um papagaio que jamais cala o bico. Ao ser questionado sobre o que angustia o pobre monografando, o que geralmente diz o papagaio?

 

  • não sei sobre que tema fazer;
  • tenho um tema em mente, mas não sei se rende;
  • tenho dois temas e não consigo escolher;
  • simplesmente não sei por onde começar;
  • não sei quem pode me orientar;
  • não sei como abordar meu possível orientador;
  • sei o que quero fazer, mas não há ninguém que possa me orientar aqui;
  • não sei escrever na linguagem científica;
  • detesto a linguagem acadêmica e acho isso uma bobagem;
  • não tenho tempo, já estou trabalhando;
  • não tenho disciplina suficiente, sou muito dispersivo;
  • não sei lidar com prazos;
  • não gosto de ler teoria;
  • nunca vou conseguir ler toda a bibliografia necessária;
  • tenho medo de misturar autores de diferentes paradigmas;
  • não entendo nada de metodologia;
  • nunca escrevi mais do que dez páginas, como vou escrever uma monografia?

 

Dificilmente alguém estará livre de algumas dessas angústias. Na verdade, elas acompanham todos os pesquisadores. Doutores também possuem dúvidas sobre  questões de pesquisa e escolhas de métodos, por exemplo, e a maioria tem dificuldade para lidar com prazos.

 

Vou procurar tratar de cada item separadamente, pois todos são pertinentes. O que importa dizer, logo de início, é que essas angústias não são individuais, e sim compartilhadas. Alguns podem estar mais seguros sobre um ou outro ponto, mas todos passam pelas mesmas dúvidas. Falar sobre essas questões vai retirando aquela aura mítica de que haveria mentes privilegiadas para as quais a monografia seria apenas uma questão de “sentar e escrever”. Bem, isso não existe. Infelizmente, ninguém “senta e escreve” uma monografia.