Projeto


A definição do corpus é um dos grandes problemas de quem faz pesquisa. Depois de escolher o tema, o objeto empírico, formular uma questão e estabelecer os objetivos, estamos diante da pergunta: “de quantas unidades preciso para …?”.

É neste momento que nos perguntamos: quantas pessoas preciso entrevistar, quantos questionários devo aplicar, quantas edições de um jornal devo analisar? Também nos perguntamos como selecionar estas unidades de análise e qual o recorte temporal do corpus.

Não há regras definidas. Tudo depende da questão de pesquisa, da natureza do objeto e dos objetivos que você pretende alcançar. Conversar com o orientador é fundamental para chegar a uma boa definição do corpus.

No PowerPoint a seguir, você encontra algumas dicas básicas sobre os tipos de seleção das unidades e sobre as características de um bom corpus.

Ao construir seu Projeto de Pesquisa, você terá um item chamado “Objetivos”. Nele você vai explicitar o Objetivo Geral e os Objetivos Específicos da pesquisa. Mas lembre que, na redação final da Monografia, você vai expor estes objetivos na Introdução: “O objetivo geral desta pesquisa é…” e “A pesquisa tem como objetivos específicos: a) …; b) …”, ou algo similar.

Um objetivo é, grosso modo, aquilo que você pretende atingir. A clareza dos objetivos é tão importante, que sem ela você não consegue chegar ao momento da escolha dos métodos. Cada objetivo expresso subentende a terrível pergunta: “como” atingir este objetivo? Este “como” é o método. Por isso, antes de pensar em metodologia você precisa definir os objetivos. Não inverta o processo.

Há algumas regras básicas para que possamos formular bons objetivos. A primeira regra é que o objetivo geral está intimamente relacionado com o problema ou questão de pesquisa. Podemos dizer que é apenas uma nova forma de expor a mesma idéia. Se sua questão de pesquisa indica uma coisa e o objetivo geral indica outra, reveja, refine e reescreva. Eles têm que estar conectados.

A segunda regra é que todo objetivo é redigido partindo de um verbo no infinitivo. A escolha do verbo é difícil, pois ele precisa se aproximar o mais possível do que você realmente pretende. Abaixo, coloco uma lista de verbos mais utilizados. Cada um deles tem um significado, e só você pode fazer esta escolha – você e seu orientador, evidentemente.

A terceira regra é que o objetivo geral é, como o próprio nome indica, o mais amplo. É totalmente errado possuir um objetivo específico que não esteja contemplado pelo objetivo geral. É errado quando um objetivo específico é maior do que o geral, mais ambicioso, mais amplo ou (como infelizmente é comum) propõe uma outra coisa. Os objetivos específicos não podem pegar o objetivo geral “de surpresa” ou “à traição”.

A quarta regra é que o objetivo geral já deve indicar o objeto empírico. Ao ler este objetivo, o examinador já sabe onde você vai realizar aquela pretensão. Não é necessário incluir recorte temporal ou delimitação do corpus.

Por fim, os objetivos específicos são recortes do seu objetivo geral. Ao atingi-los, você estará atingindo o objetivo mais amplo. Isso não inclui, jamais, a identificação da metodologia. Vou dar um exemplo bastante habitual: “realizar entrevistas com jornalistas para verificar seus modos de compreensão sobre…”. Não. O objetivo deve ser “identificar como os jornalistas compreendem…”. A entrevista é o método, e o método deve ser explicitado depois. O método é como você vai chegar ao que quer identificar.

Exemplos de verbos mais utilizados:

  • Analisar
  • Avaliar
  • Comparar
  • Compreender
  • Comprovar
  • Debater
  • Delinear
  • Demonstrar
  • Determinar
  • Diagnosticar
  • Diferenciar
  • Distinguir
  • Elaborar
  • Estabelecer
  • Estruturar
  • Evidenciar
  • Examinar
  • Explicar
  • Identificar
  • Interpretar
  • Investigar
  • Localizar
  • Mapear
  • Medir
  • Observar
  • Sistematizar
  • Verificar

Tempo, tempo, tempo. Quem sabe lidar com ele? Em uma monografia, a única certeza que você tem é que o tempo não se estende. Se você tem um semestre ou dois para produzir a monografia, terá que trabalhar com esta medida de tempo e adequar seus interesses e possibilidades aos meses de que dispõe.

Conhecer (e admitir) sua vida concreta, e não a vida que gostaria de ter, é fundamental. Se você trabalha e precisa “encaixar” a monografia nos horários de folga do trabalho e das outras disciplinas, é evidente que precisa escolher um tema que exija menos dedicação, em termos de tempo. Se você tem mais tempo disponível, pode projetar um problema mais complexo e que demande mais leituras. O que não pode fazer, de modo algum, é fingir que “vai dar tempo” e inventar de pesquisar um tema que exigiria mais tempo do que você efetivamente terá.

De qualquer modo, tendo mais ou menos tempo, o certo é que precisará de algum. E deverá deixar ao orientador um certo tempo também, para que ele possa fazer o trabalho que lhe compete – ler, revisar, dar retorno. Poucas coisas irritam mais um orientador do que o orientando que não cumpre os prazos, não vem à orientação e depois entrega tudo no último dia, quando não é possível fazer nenhuma alteração. O orientador fica com a sensação clara de ter sido usado. E mal usado, diga-se.

Sempre digo aos meus orientandos que monografia (assim como dissertação e tese) a gente faz aos pedacinhos. É a Lei de Jack. É a única lei que funciona. Depois de estabelecer uma arquitetura, a gente vai dando conta do recado por partes. A cada capítulo, vai entregando ao orientador, que vai lendo, devolvendo e pedindo correções. No final, falta apenas o polimento. Se você não prevê o tempo do polimento, seu texto vai revelar o desequilíbrio, e a banca vai perceber.

Uma vez uma pessoa me disse que não tinha dificuldade alguma com trabalhos, pois tinha um método próprio. Ela “sentava e escrevia”. Tinha feito sua monografia de conclusão de curso assim. Na verdade, tinha tirado férias do trabalho durante duas semanas, e neste período tinha se trancado em casa para escrever a monografia. Eu disse a ela que não acreditava neste método de trabalho, porque nenhum texto tão extenso poderia ser de fato escrito em tão pouco tempo. Realmente o método não funciona, porque esta mesma pessoa depois perdeu todos os prazos – e perdeu o Mestrado.

E por que não funciona? O que acontece quando você começa a escrever? Você mergulha naquela parte do trabalho e, à medida que escreve, surgem dúvidas que requerem uma ou outra nova leitura. Se você não prevê pelo menos três semanas para escrever cada capítulo, não se permite um amadurecimento destas idéias. Seu texto fica plano e sem capacidade de articulação. Além disso, a parte empírica do trabalho normalmente exige uma dedicação maior e grande esforço intelectual. Se você estiver muito cansado – porque passou escrevendo de forma alucinada seus capítulos teóricos –, não terá criatividade para observar seu objeto.

Por todas essas razões, a melhor decisão é de cunho pragmático: já que você não pode estender o tempo, pense em perspectiva e trabalhe com pequenos prazos. Faça seu cronograma, discuta o planejamento com seu orientador. E cumpra estes pequenos prazos, um depois do outro.

Não empurre com a barriga. Não fique fingindo que “vai dar tempo” e que suas madrugadas insones serão suficientes. E não sacaneie o orientador, entregando o texto e esperando que ele lhe dê retorno (e sem exigir modificações, por supuesto) em dois dias. Isso simplesmente não vai acontecer.

Pesquisadores são seres problemáticos. Se seu projeto não tem um problema, é você que está com um (e dos grandes). Sem problematização, não há pesquisa. Não há meio-termo para isso.

Problema é a questão a ser respondida pelo trabalho. Não é, porém, uma questão simples. Ela já vem polida por uma certa reflexão teórica. É uma questão que já tomou forma em sua mente: portanto, ela deriva se sua observação sobre um fenômeno e deriva de questões teóricas sobre ele. No caso da Monografia que estamos tratando aqui, a questão de pesquisa deriva da observação sobre um fenômeno do campo da Comunicação e se ampara em reflexões tanto desta área quanto de áreas que lhe são afins.

Não existem regras para a apresentação do problema ou questão de pesquisa. Pode ser apresentado como uma pergunta ou como uma afirmação. O que importa é que o problema seja bem construído, pois ele é o centro da pesquisa. A redação deve ser clara e precisa. Ao ler o problema de pesquisa, o examinador já sabe o que esperar da monografia. E é esta pergunta que o examinador exige que seja respondida ao final. Portanto, invista na escritura do problema (bem como na redação dos objetivos, que vou tratar em outro post).

Construir a questão de pesquisa é, geralmente, a parte mais demorada da elaboração de um projeto. Depois que você consegue (finalmente) chegar a um tema, começam as dúvidas sobre a questão de pesquisa: o que posso perguntar sobre este objeto e, especialmente, o que posso perguntar e efetivamente responder sobre ele? Não é possível dar uma orientação genérica sobre isso, pois cada caso é realmente um caso. Depende do enfoque e do que você está querendo propor. No entanto, os limites do problema de pesquisa devem estar definidos também pela exeqüibilidade, pelo tempo de execução, pelo conhecimento do pesquisador, pelo acesso aos dados de pesquisa, pela relevância da questão e pelo caráter de um trabalho monográfico.

Por favor, lembre-se: uma Monografia é um trabalho recortado, sem pretensões de ser uma Dissertação de Mestrado ou uma Tese de Doutorado. Não caia na armadilha de propor algo grande demais e exige tempo demais.

Dica de redação:

Existe uma diferença fundamental entre a redação de um Projeto de Pesquisa e a redação final da Monografia. O Projeto é aquilo que você vai apresentar ao seu orientador, para vocês discutirem os rumos do trabalho. A Monografia é o relatório final da sua pesquisa.

Assim, no Projeto você terá um item específico chamado “Problema de Pesquisa” ou “Questão de Pesquisa”, no qual o problema deve estar redigido de forma isolada do resto do texto. Na Monografia, porém, não cabe ter um item específico, com um título próprio, para identificar o seu problema ou questão de pesquisa. Então, onde ele estará exposto? Necessariamente, você terá que narrá-lo na Introdução do trabalho, deixando claro para quem ler qual é a questão que norteia a investigação. A melhor forma é a mais clara, direta e explícita, como: “Meu problema de pesquisa é: ….” ou “O problema de pesquisa que orienta esta monografia é ….”. O mesmo vale para os objetivos (tanto o geral como os específicos), que devem estar explicitados também na Introdução. Se o avaliador tiver clareza sobre o que você pretende, saberá como deve ler o seu trabalho. Seja esperto: é você quem dá o tom do seu texto. Guie a leitura, diga o que está fazendo.

Pela minha experiência, a escolha do tema está entre as mais difíceis decisões de quem constrói um projeto de monografia. Quando você começa a pensar sobre o que fazer, antes de definir exatamente o “objeto empírico”, está em busca de um tema, que é este campo mais amplo onde se inscrevem os seus interesses. Não esqueça que você vai passar meses agarrado a este tema – portanto ele, no mínimo, não pode ser chato.

Entram em jogo, no entanto, as limitações institucionais. Você terá que ser orientado na produção da monografia. São poucos os professores, e alguns deles já têm orientandos na agenda. Além disso, nenhum professor vai se arriscar a orientar uma monografia que fuja completamente ao seu campo básico de conhecimento, o que estaria no limite da irresponsabilidade. Portanto, você vai ter que conjugar o seu interesse com a capacidade de orientação dos professores disponíveis. Talvez tenha que fazer, neste processo, algumas concessões: ou em relação ao objeto, ou teóricas, ou mesmo metodológicas.

É bom lembrar que o Departamento de Comunicação permite que você busque um orientador em outro Departamento da UFRGS ou alguém que tenha título de mestre e seja cadastrado como orientador – o que aumentam as possibilidades de orientação. Você também pode ser co-orientado por alunos de Doutorado do PPGCOM (Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação), com a supervisão dos orientadores destes doutorandos.

De qualquer modo, ao iniciar a elaboração do tema, já avalie as possibilidades de orientação. É uma economia de esforços que pode evitar uma série de desgastes.

A monografia é obrigatória e paira sobre os ombros do monografando como um papagaio que jamais cala o bico. Ao ser questionado sobre o que angustia o pobre monografando, o que geralmente diz o papagaio?

 

  • não sei sobre que tema fazer;
  • tenho um tema em mente, mas não sei se rende;
  • tenho dois temas e não consigo escolher;
  • simplesmente não sei por onde começar;
  • não sei quem pode me orientar;
  • não sei como abordar meu possível orientador;
  • sei o que quero fazer, mas não há ninguém que possa me orientar aqui;
  • não sei escrever na linguagem científica;
  • detesto a linguagem acadêmica e acho isso uma bobagem;
  • não tenho tempo, já estou trabalhando;
  • não tenho disciplina suficiente, sou muito dispersivo;
  • não sei lidar com prazos;
  • não gosto de ler teoria;
  • nunca vou conseguir ler toda a bibliografia necessária;
  • tenho medo de misturar autores de diferentes paradigmas;
  • não entendo nada de metodologia;
  • nunca escrevi mais do que dez páginas, como vou escrever uma monografia?

 

Dificilmente alguém estará livre de algumas dessas angústias. Na verdade, elas acompanham todos os pesquisadores. Doutores também possuem dúvidas sobre  questões de pesquisa e escolhas de métodos, por exemplo, e a maioria tem dificuldade para lidar com prazos.

 

Vou procurar tratar de cada item separadamente, pois todos são pertinentes. O que importa dizer, logo de início, é que essas angústias não são individuais, e sim compartilhadas. Alguns podem estar mais seguros sobre um ou outro ponto, mas todos passam pelas mesmas dúvidas. Falar sobre essas questões vai retirando aquela aura mítica de que haveria mentes privilegiadas para as quais a monografia seria apenas uma questão de “sentar e escrever”. Bem, isso não existe. Infelizmente, ninguém “senta e escreve” uma monografia.

 

A primeira dificuldade é definir o tema de pesquisa. Um bom tema deve:

  • Ser prazeroso e interessante ao pesquisador. Escolha algo que lhe dê prazer. Não torne a monografia um fardo mais pesado do que já é.
  • Estar adequado ao universo básico de conhecimento do pesquisador. Você gosta de televisão? Estude televisão. Sempre gostou de discutir política? Pense em uma problemática nesse campo. A mesma lógica vale para as disciplinas de antropologia, história, psicologia, sociologia, arte, filosofia, economia etc. A monografia é uma oportunidade de estudar e aprofundar conhecimentos, portanto escolha algo que você queira conhecer melhor.
  • Ser pertinente à área de conhecimento. Ou seja, estude Comunicação.
  • Ser exeqüível quanto ao tempo de execução. Não planeje algo que demanda mais tempo do que você dispõe, apenas para na metade do caminho ser obrigado a reduzir suas ambições. Não gere suas próprias frustrações.
  • Ser exeqüível quanto ao acesso às fontes de pesquisa. Se seu trabalho exige acesso a informações privilegiadas, assegure-se de que tem este acesso antes de ir adiante. Se o acesso não é garantido, o melhor a fazer é mudar de tema ou de objeto.
  • Oferecer uma abordagem original. Para isso, é preciso avaliar o que vem sendo feito e propor um objeto novo ou um novo olhar sobre um objeto já pesquisado.
  • Ter interesse público. De modo geral, eu diria que tem interesse público aquilo que pode contribuir com o conhecimento do campo da Comunicação, de um grupo social ou de uma instituição (preferencialmente pública). É importante que os resultados possam ser socializados. 
  • Ter relevância histórica e científica. A menos que seu trabalho tenha caráter histórico, é importante que você escolha temas contemporâneos. A relevância científica está associada ao interesse público e à validade que seu trabalho demonstrará, pelo referencial teórico e pela metodologia utilizados. 

 

Aqui estão, de forma geral, as temáticas que vêm sendo pesquisadas no campo da Comunicação e que podem inspirar sua monografia:

Jornalismo – jornais, imprensa sindical ou institucional, jornalismo alternativo ou comunitário, história da imprensa, telejornalismo, radiojornalismo, revistas de informação, webjornalismo, fotojornalismo, jornalismo especializado, gêneros jornalísticos, assessoria de imprensa, relação com as fontes, rotinas de produção, critérios de noticiabilidade, identidade profissional do jornalista, ética jornalística, observatórios de mídia, ensino de jornalismo

Publicidade – estratégias publicitárias, estudos de marca, marketing de relacionamento, criatividade, criação, consumo, análise de publicidade em meios segmentados, história da publicidade, marketing, marketing cultural, marketing religioso, marketing de responsabilidade social, buzz marketing, merchandising, propaganda e espaços urbanos, relação entre arte e publicidade, design gráfico, jingles, propaganda institucional, legislação, marketing eleitoral, propaganda política, ensino de publicidade e propaganda

Relações públicas – comunicação organizacional, cultura organizacional, meios como ferramentas de comunicação, recursos humanos, responsabilidade social, terceiro setor, marketing cultural, marketing institucional, marketing religioso, imagem dos profissionais de relações públicas, imagem e marca institucional, avaliação de resultados, comunicação dirigida, comunicação na administração pública, ensino de RP

Televisão e vídeo – telenovelas, seriados, gêneros televisivos, história da televisão, vídeo independente, vídeo popular ou alternativo, vídeo comercial, televisão pública, legislação

Rádio – gêneros radiofônicos, rádio comunitária, rádio pública, história do rádio, legislação

Internet – cibercultura, redes sociais, comunidades virtuais, blogs, interação

Fotografia – análise de produtos, relação com a arte, representação, impacto da tecnologia

Cinema – análise de filmes, métodos de produção, captação de recursos, distribuição, mercado audiovisual, linguagem, história do cinema

Editoração – produção, leitura, livro, revistas científicas, histórias em quadrinhos

Música – consumo, tipos, representações, impacto da tecnologia

Cultura – expressões da cultura popular, identidades, gênero (mulheres), cultura de massa, grafite, corpo e comunicação, estudos de recepção

Linguagem e estética – estudos de discurso, imaginário, representações, narrativas, subjetividades, transposição de linguagens de um suporte a outro

Tecnologia – desenvolvimento de tecnologias, plataformas midiáticas, programas, modos de interação, impacto das redes digitais no consumo de produtos culturais, computação gráfica, escrita coletiva, convergência dos meios

Indústria cultural – poder dos meios, economia política, informação no capitalismo, empresas de comunicação

Teorias e metodologias da comunicação – estudos de epistemologia da comunicação, o que é ciência, metodologia de pesquisa